Era uma
feira como outra qualquer, mas a língua ali falada, o povo que vendia e
comprava e a maioria das frutas e verduras alí vendidos eram estranhos à única
estrangeira por essas bandas da Índia. Mesmo há um ano e meio por aqui, ainda
me é desconhecida a variedade infindável de diferentes itens culinários. Mesmo
os legumes os quais eu já conhecia de terras tupiniquins, aqui carregam outros
nomes, formatos e sabores.
Mas eis
que, caminhando entre os apelos de compra gritados em uma língua a qual eu não
entendo, vejo uma raiz familiar. Me aproximo e confirmo – após tanto tempo na
Índia,sem de fato buscar, encontrei batata doce. Minha expressão ao verificar,
incrédula, a raiz arroxeada, jamais será entendida pelo vendedor que
prontamente pesa um quilo de batata ao ser solicitado. O que para ele é um
quilo de qualquer coisa que o dará vinte rúpias, é para mim um quilo de
memórias. Pesam sobre a balança imunda todas as tardes em que minha mãe
preparava batata doce quentinha, com a
manteiga derretendo por cima e o delicioso café fumegando na xícara. O homem de
lungui empacota, em um jornal de
letras estranhas, um pedaço do que é ser Nordestina e só depois ser Brasileira,
algo que é meio que esquecido ao passar-se um tempo longe dos verdes mares, do
aroma das cozinhas pelas quais cresci e da facilidade de se encontrar batata
doce em qualquer feirinha.
Saudosa,
levo para casa um quilo de memórias a serem desfiadas com o Paraibano com quem
divido uma vida, o qual ficou também feliz e saudoso com o conteúdo do pacote.
A água ferve e cozinha as batatas. Passo o restinho do café Brasileiro que me
foi enviado e só é tomado em ocasiões especiais, como esta. Saboreamos nossas
melhores lembranças enquanto o aroma do lanche se mistura aos distantes
batuques do templo hindu e à fumaça do incenso janela afora.

