terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A batata doce





Era uma feira como outra qualquer, mas a língua ali falada, o povo que vendia e comprava e a maioria das frutas e verduras alí vendidos eram estranhos à única estrangeira por essas bandas da Índia. Mesmo há um ano e meio por aqui, ainda me é desconhecida a variedade infindável de diferentes itens culinários. Mesmo os legumes os quais eu já conhecia de terras tupiniquins, aqui carregam outros nomes, formatos e sabores.
Mas eis que, caminhando entre os apelos de compra gritados em uma língua a qual eu não entendo, vejo uma raiz familiar. Me aproximo e confirmo – após tanto tempo na Índia,sem de fato buscar, encontrei batata doce. Minha expressão ao verificar, incrédula, a raiz arroxeada, jamais será entendida pelo vendedor que prontamente pesa um quilo de batata ao ser solicitado. O que para ele é um quilo de qualquer coisa que o dará vinte rúpias, é para mim um quilo de memórias. Pesam sobre a balança imunda todas as tardes em que minha mãe preparava  batata doce quentinha, com a manteiga derretendo por cima e o delicioso café fumegando na xícara. O homem de lungui empacota, em um jornal de letras estranhas, um pedaço do que é ser Nordestina e só depois ser Brasileira, algo que é meio que esquecido ao passar-se um tempo longe dos verdes mares, do aroma das cozinhas pelas quais cresci e da facilidade de se encontrar batata doce em qualquer feirinha.


Saudosa, levo para casa um quilo de memórias a serem desfiadas com o Paraibano com quem divido uma vida, o qual ficou também feliz e saudoso com o conteúdo do pacote. A água ferve e cozinha as batatas. Passo o restinho do café Brasileiro que me foi enviado e só é tomado em ocasiões especiais, como esta. Saboreamos nossas melhores lembranças enquanto o aroma do lanche se mistura aos distantes batuques do templo hindu e à fumaça do incenso janela afora.