terça-feira, 26 de março de 2013

O Kathakali



Desde que cheguei em Kerala, interessei-me por uma arte dramática chamada Kathakali. Com duração de no mínimo três horas, o drama narra histórias de amor ou de reis. O diferencial é que a história não é contada com palavras e sim com expressões faciais e mudras, movimentos com as mãos de dedos, muito semelhates a nossa LIBRAS. Os personagens utilizam uma maquiagem carregada e muitos arranjos na cabeça, além de um figurino bastante pesado e rico em adornos de ouro. A sonoplastia é feita com instrumentos tipicamente indianos e algumas canções são cantadas em Sânscrito. Assistir esse espetáculo, sem ser hindu e ainda mais sendo estrangeira, é um imenso privilégio. Embora algumas cidades mais turísticas apresentem o Kathakali em sessões especiais para estrangeiros, a qualidade desses espetáculos é duvidável – o tempo é diminuído a história é remontada para que os estrangeiros os quais, sem a paciência que o Indiano possui para um espetáculo de três horas sem falas, querem ter o gostinho do que é o Kathakali. Na cidade em que moro, as apresentações de Kathakali acontecem durantes os dez dias de festa do aniversário do templo de Angadipuram. O espetáculo começa à meia-noite e se encerra às 3 da manhã, quando as poojas, oferendas feitas aos deuses, se iniciam.


Sabendo do meu interesse, um dos funcionários da escola em que eu trabalho prometeu levar-me. Combinamos dia e hora em que ele me pegaria em casa para que fóssemos juntos ao templo. Sozinha e sem algumas rúpias de suborno, eu jamais seria capaz de assistir ao espetáculo. Ao que o dia do espetáculo se aproximava, o funcionário da escola perguntava cada vez mais detalhes sobre o dia do espetáculo. Numa dessas conversas, ele citou que já fez arranjos para que ambos eu e meu namorado fiquemos em cadeiras bem pertinho do palco. Mas acontece que meu namorado não queria ir e ao saber dessa informação que, para mim, era irrelevante, a mudança na expressão facial do funcionário na escola mudou e ele até ensaiou um tapa no rosto do meu namorado. Sem entender, rimos da situação e do aperreio do Indiano . 


Só saberíamos o porquê de sua indignação no dia seguinte, quando reparei olhares estranhos e conversas de pé de ouvido que nitidamente me tinham como tópico. Até que o professor de música Indiana veio me perguntar se eu ainda ia assistir o espetáculo de Kathakali no dia seguinte. Sem entender o “ainda”, respondi que sim e rapidamente ele perguntou indignado a razão pela qual meu namorado não me acompanharia. A simples afirmação de que ele não queria ir não foi suficiente, mas a conversa morreu aí. Algumas horas depois, o mesmo professor de música me aborda nas escadarias da escolas dizendo que eu não me preocupasse pois a filha do funcionário havia concordado em ir conosco. Eu não estava preocupada, mas fiquei, pois entendi a razão de tanto alvoroço.  Mesmo sem ser casada, meu namorado é, aos olhos de uma cidade Indiana de predominância islâmica, meu dono. Sair sem ele é algo inadmissível, sair acompanhada com um outro homem, mesmo que ele tenha idade para ser meu avô é motivo para um escândalo tanto para mim, mulher desonrada, como para ele, um possível estuprador de mulheres desacompanhadas de seus legítimos donos. Acabei não indo para o espetáculo de Kathakali. Não preciso ser acompanhada por outra mulher em nome de minha honra. Mais tarde, o funcionário me presenteou com um DVD com quatro horas de espetáculo.


A situação, completamente nova para mim, mesmo com um ano e meio de Índia e 11 meses morando numa cidade de maioria islâmica, ao invés de deixar com raiva, minha reação natural a qualquer espécie machismo, entristeci. Entristeci pois as mulheres dessa cidade não possuem a menor perspectiva de que essa situação, em que homens são donos de suas esposas, se modifique. Mas as mulheres da minha cidade vivem situação parecida com uma diferença – há na sociedade em que elas vivem a possibilidade de quebrar esse ciclo, mas a imensa maioria não quebra. Conheço algumas mulheres independentes, cujos maridos são companheiros de vida e na qual a relação não é ditada por nenhum dos dois. Mas a maioria das mulheres da minha cidade e do meu país vivem relacionamentos ditados pelos desejos do homem e de uma sociedade machista na qual o tamanho da sua saia é justificativa para um estupro e dupla jornada é uma questão aceita sem maiores discussões. Mulheres e homens ocupam papéis pre-estabelecidos que não são questionados, desde a mãe que não deixa o filho ajudar nas tarefas de casa pois “não é coisa de homem”, passando pela adolescência na qual o menino precisa “pegar geral” para se afirmar como homem, até o cara que bate na mulher e a sociedade diz que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, um eufemismo pra apatia diante da violência doméstica. Vivemos  num mundo em que um homem traído é corno, a mulher traída é apenas um lugar comum.


O que achamos absurdo aqui, por ser pintado com as cores agourentas das burcas opressoras,  é rotina na vida de muitas mulheres no Brasil  que, caladas e oprimidas, seguem seus dias.

terça-feira, 12 de março de 2013

O trabalho

Da quinta-feira em diante, minha timeline vira um festival de anúncios em Português do fim de semana. Os mensageiros da boa-nova são gatos, cachorros e bebês com expressões faciais estranhas. Temos uma relação quase sexual com a folga. Veneramos os feriados, iniciamos o ano após o carnaval. Mas ao desconectar do Facebook, meu pedacinho do Brasil no subcontinente, a realidade muda de figura. Quinta-feira é apenas Quinta-feira, assim como qualquer outro dia da semana ou do fim dela. Todas as lojas abrem, a maioria das pessoas trabalha de Domingo a Domingo e, ao ser solicitado a ficar algumas horas ou dias além do combinado no contrato de trabalho, o Indiano, como faz com tantas outras coisas, pacientemente aceita. Work is worship, diz o ditado que ouvi por aqui mais vezes do que eu queria. Hora-extra, 13o. salário, férias remuneradas, PIS...palavras e siglas tão comuns ao meu dia-a-dia não significam nada em uma terra cujas leis trabalhistas ainda engatinham. 
Gente demais!

Ainda é viva em minha memória a expressão de horror da minha vizinha indiana quando comentei com ela que é cada vez mais raro e impossível ter empregados em casa. A evolução das leis trabalhistas dá direitos aos empregados domésticos (mais que merecidos), tornando um luxo reservado aos ricos ter alguém que cuide de sua casa por você. Minha vizinha quase infartou diante da realidade de uma empregada com carteira assinada. Por algumas poucas rúpias, é perfeitamente possível ter quem cuide de sua roupa, de sua comida, de sua casa e de praticamente qualquer coisa que vier à mente - 24 horas por dia nos sete dias da semana.

Super-populada, a Índia carrega filhos demais, cada filho precisa de um trabalho e exigir direitos trabalhistas é um luxo. Lembro-me da vez em que precisei de um sapato. Havia um segurança do lado de fora, alguém para abrir a porta de vidro, uns quinze vendedores e, pasme, alguém cuja função exclusiva era calçar e descalçar os sapatos, isso sem falar dos caixas, dos empacotadores e das outras funções não tão óbvias a meus olhos de cliente. Nos restaurantes, o garçom oferece o cardápio e traz os pedidos, mas é um rapaz jovem demais para estar trabalhando que recolhe os pratos sujos e limpa as migalhas da mesa. Na escola em que trabalho, quase todos os professores possuem mestrado e alguns até doutorado, mas vivem de salários que trariam lágrimas aos olhos dos mestres Brasileiros. 
Sua obrigação é Deus; o trabalho é devoção. Mesmo o menor dos trabalhos é como uma flor colocada aos pés de Deus.

Em meio há tantos, ser notado em meio à multidão é tarefa cada vez mais difícil. Sem leis que os amparem, baixar a cabeça diante das vontades do chefe é tarefa inevitável. Talvez nossa alegria diante da folga e dos feriados seja como um samba cuja carteira de trabalho faça as vezes de atabaque, dando ritmo e possibilitando a festa.





terça-feira, 5 de março de 2013

O trânsito



 O barulho ensurdecedor do caminhão carregado de madeira tirando "um fino" do ônibus da escola leva embora a sonolência de mais uma manhã na Índia. Boquiaberta, olho ao redor e apenas os professores estrangeiros se assustaram - os Indianos permanecem calmos. Nada aconteceu. O motorista segue seu rumo aumentando a velocidade. Ao invés de diminuir a empolgação na curva adiante, ele enfia o pé no acelerador. Um tuk-tuk desvia do nosso ônibus no momento exato e em, menos de cinco segundos, é nosso ônibus que desvia por alguns centímetros de um caminhão que quase levita de tão rápido. Mais adiante, um grupo de Indianos atravessa a rua ignorando o potencial atropelamento, mostrando a palma das mãos aos carros menores que ignoram prontamente seus pedidos. Parados entre o zig-zag de carros, escapam de um tuk-tuk lotado, escapam de uma moto levando três pessoas e, antes que o caminhão de carga lhes dê a chance de experimentar a reencarnação, atravessam a rua correndo. A faixa de pedestres estava há apenas alguns metros, mas eles sabem muito bem que a zebrinha é mais um enfeite ocidental do que uma norma a ser seguida.



Alguns minutos depois, viramos recheio de um letal sanduíche de caminhões. A faixa que separa a rua em duas é ignorada. A cada desvio, os caminhões perigosamente se aproximam do ônibus que nos leva e eu afasto meu rosto do janela já me imaginando ensanguentada. Arrancando bruscamente, o ônibus escapa do sanduíche buzinando em fúria. No processo, quase atropela um casal que pilota uma moto sem capacete e sem ciência da morte que quase os leva. Olho para o motorista que buzina repetidamente esperando ver ódio em seus olhos, mas sua face mostra calma e paciência. Nada aconteceu.

Quando uma das freiadas bruscas me sacode em meu assento pela sexta vez em 15 minutos de trajeto, reflito sobre o trânsito de Fortaleza. Quantas vezes me indignei com a imprudência dos motoristas de ônibus e topics que usam a dimensão de seus veículos como armas contra os veículos menores! Quantas vezes praguejei contra motoristas que esperam o semáforo mudar de cor deitando seus carros sobre a faixa que é para pedestres! Quantas vezes ouvi do fundo do ônibus um sonoro "´tá carregando jumento não, motorista!" diante do freiar brusco que provoca uma desagradável ondas de pessoas jogadas umas sobre as outras!  Lembro e a saudade do terrível "jeitinho Brasileiro" de dirigir deixa um gosto amargo na boca.

O Cearense se aproveita da ausência de foto-sensor, do "ninguém está olhando", do "tô nem fazendo prova do Detran pra fazer o retorno corretamente". O Indiano faz o que quer e entende que todos farão o mesmo e nisso encontram uma estranha harmonia. Fico pensado quantos dias de estágio no trânsito da Índia seriam necessários para fazer do motorista Cearense o motorista Indiano. Talvez bem menos do que a gente imagina.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A batata doce





Era uma feira como outra qualquer, mas a língua ali falada, o povo que vendia e comprava e a maioria das frutas e verduras alí vendidos eram estranhos à única estrangeira por essas bandas da Índia. Mesmo há um ano e meio por aqui, ainda me é desconhecida a variedade infindável de diferentes itens culinários. Mesmo os legumes os quais eu já conhecia de terras tupiniquins, aqui carregam outros nomes, formatos e sabores.
Mas eis que, caminhando entre os apelos de compra gritados em uma língua a qual eu não entendo, vejo uma raiz familiar. Me aproximo e confirmo – após tanto tempo na Índia,sem de fato buscar, encontrei batata doce. Minha expressão ao verificar, incrédula, a raiz arroxeada, jamais será entendida pelo vendedor que prontamente pesa um quilo de batata ao ser solicitado. O que para ele é um quilo de qualquer coisa que o dará vinte rúpias, é para mim um quilo de memórias. Pesam sobre a balança imunda todas as tardes em que minha mãe preparava  batata doce quentinha, com a manteiga derretendo por cima e o delicioso café fumegando na xícara. O homem de lungui empacota, em um jornal de letras estranhas, um pedaço do que é ser Nordestina e só depois ser Brasileira, algo que é meio que esquecido ao passar-se um tempo longe dos verdes mares, do aroma das cozinhas pelas quais cresci e da facilidade de se encontrar batata doce em qualquer feirinha.


Saudosa, levo para casa um quilo de memórias a serem desfiadas com o Paraibano com quem divido uma vida, o qual ficou também feliz e saudoso com o conteúdo do pacote. A água ferve e cozinha as batatas. Passo o restinho do café Brasileiro que me foi enviado e só é tomado em ocasiões especiais, como esta. Saboreamos nossas melhores lembranças enquanto o aroma do lanche se mistura aos distantes batuques do templo hindu e à fumaça do incenso janela afora.