terça-feira, 12 de março de 2013

O trabalho

Da quinta-feira em diante, minha timeline vira um festival de anúncios em Português do fim de semana. Os mensageiros da boa-nova são gatos, cachorros e bebês com expressões faciais estranhas. Temos uma relação quase sexual com a folga. Veneramos os feriados, iniciamos o ano após o carnaval. Mas ao desconectar do Facebook, meu pedacinho do Brasil no subcontinente, a realidade muda de figura. Quinta-feira é apenas Quinta-feira, assim como qualquer outro dia da semana ou do fim dela. Todas as lojas abrem, a maioria das pessoas trabalha de Domingo a Domingo e, ao ser solicitado a ficar algumas horas ou dias além do combinado no contrato de trabalho, o Indiano, como faz com tantas outras coisas, pacientemente aceita. Work is worship, diz o ditado que ouvi por aqui mais vezes do que eu queria. Hora-extra, 13o. salário, férias remuneradas, PIS...palavras e siglas tão comuns ao meu dia-a-dia não significam nada em uma terra cujas leis trabalhistas ainda engatinham. 
Gente demais!

Ainda é viva em minha memória a expressão de horror da minha vizinha indiana quando comentei com ela que é cada vez mais raro e impossível ter empregados em casa. A evolução das leis trabalhistas dá direitos aos empregados domésticos (mais que merecidos), tornando um luxo reservado aos ricos ter alguém que cuide de sua casa por você. Minha vizinha quase infartou diante da realidade de uma empregada com carteira assinada. Por algumas poucas rúpias, é perfeitamente possível ter quem cuide de sua roupa, de sua comida, de sua casa e de praticamente qualquer coisa que vier à mente - 24 horas por dia nos sete dias da semana.

Super-populada, a Índia carrega filhos demais, cada filho precisa de um trabalho e exigir direitos trabalhistas é um luxo. Lembro-me da vez em que precisei de um sapato. Havia um segurança do lado de fora, alguém para abrir a porta de vidro, uns quinze vendedores e, pasme, alguém cuja função exclusiva era calçar e descalçar os sapatos, isso sem falar dos caixas, dos empacotadores e das outras funções não tão óbvias a meus olhos de cliente. Nos restaurantes, o garçom oferece o cardápio e traz os pedidos, mas é um rapaz jovem demais para estar trabalhando que recolhe os pratos sujos e limpa as migalhas da mesa. Na escola em que trabalho, quase todos os professores possuem mestrado e alguns até doutorado, mas vivem de salários que trariam lágrimas aos olhos dos mestres Brasileiros. 
Sua obrigação é Deus; o trabalho é devoção. Mesmo o menor dos trabalhos é como uma flor colocada aos pés de Deus.

Em meio há tantos, ser notado em meio à multidão é tarefa cada vez mais difícil. Sem leis que os amparem, baixar a cabeça diante das vontades do chefe é tarefa inevitável. Talvez nossa alegria diante da folga e dos feriados seja como um samba cuja carteira de trabalho faça as vezes de atabaque, dando ritmo e possibilitando a festa.





Nenhum comentário:

Postar um comentário