terça-feira, 5 de março de 2013

O trânsito



 O barulho ensurdecedor do caminhão carregado de madeira tirando "um fino" do ônibus da escola leva embora a sonolência de mais uma manhã na Índia. Boquiaberta, olho ao redor e apenas os professores estrangeiros se assustaram - os Indianos permanecem calmos. Nada aconteceu. O motorista segue seu rumo aumentando a velocidade. Ao invés de diminuir a empolgação na curva adiante, ele enfia o pé no acelerador. Um tuk-tuk desvia do nosso ônibus no momento exato e em, menos de cinco segundos, é nosso ônibus que desvia por alguns centímetros de um caminhão que quase levita de tão rápido. Mais adiante, um grupo de Indianos atravessa a rua ignorando o potencial atropelamento, mostrando a palma das mãos aos carros menores que ignoram prontamente seus pedidos. Parados entre o zig-zag de carros, escapam de um tuk-tuk lotado, escapam de uma moto levando três pessoas e, antes que o caminhão de carga lhes dê a chance de experimentar a reencarnação, atravessam a rua correndo. A faixa de pedestres estava há apenas alguns metros, mas eles sabem muito bem que a zebrinha é mais um enfeite ocidental do que uma norma a ser seguida.



Alguns minutos depois, viramos recheio de um letal sanduíche de caminhões. A faixa que separa a rua em duas é ignorada. A cada desvio, os caminhões perigosamente se aproximam do ônibus que nos leva e eu afasto meu rosto do janela já me imaginando ensanguentada. Arrancando bruscamente, o ônibus escapa do sanduíche buzinando em fúria. No processo, quase atropela um casal que pilota uma moto sem capacete e sem ciência da morte que quase os leva. Olho para o motorista que buzina repetidamente esperando ver ódio em seus olhos, mas sua face mostra calma e paciência. Nada aconteceu.

Quando uma das freiadas bruscas me sacode em meu assento pela sexta vez em 15 minutos de trajeto, reflito sobre o trânsito de Fortaleza. Quantas vezes me indignei com a imprudência dos motoristas de ônibus e topics que usam a dimensão de seus veículos como armas contra os veículos menores! Quantas vezes praguejei contra motoristas que esperam o semáforo mudar de cor deitando seus carros sobre a faixa que é para pedestres! Quantas vezes ouvi do fundo do ônibus um sonoro "´tá carregando jumento não, motorista!" diante do freiar brusco que provoca uma desagradável ondas de pessoas jogadas umas sobre as outras!  Lembro e a saudade do terrível "jeitinho Brasileiro" de dirigir deixa um gosto amargo na boca.

O Cearense se aproveita da ausência de foto-sensor, do "ninguém está olhando", do "tô nem fazendo prova do Detran pra fazer o retorno corretamente". O Indiano faz o que quer e entende que todos farão o mesmo e nisso encontram uma estranha harmonia. Fico pensado quantos dias de estágio no trânsito da Índia seriam necessários para fazer do motorista Cearense o motorista Indiano. Talvez bem menos do que a gente imagina.

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