Desde que
cheguei em Kerala, interessei-me por uma arte dramática chamada Kathakali. Com
duração de no mínimo três horas, o drama narra histórias de amor ou de reis. O
diferencial é que a história não é contada com palavras e sim com expressões
faciais e mudras, movimentos com as mãos de dedos, muito semelhates a nossa
LIBRAS. Os personagens utilizam uma maquiagem carregada e muitos arranjos na
cabeça, além de um figurino bastante pesado e rico em adornos de ouro. A
sonoplastia é feita com instrumentos tipicamente indianos e algumas canções são
cantadas em Sânscrito. Assistir esse espetáculo, sem ser hindu e ainda mais
sendo estrangeira, é um imenso privilégio. Embora algumas cidades mais
turísticas apresentem o Kathakali em sessões especiais para estrangeiros, a
qualidade desses espetáculos é duvidável – o tempo é diminuído a história é
remontada para que os estrangeiros os quais, sem a paciência que o Indiano
possui para um espetáculo de três horas sem falas, querem ter o gostinho do que
é o Kathakali. Na cidade em que moro, as apresentações de Kathakali acontecem
durantes os dez dias de festa do aniversário do templo de Angadipuram. O
espetáculo começa à meia-noite e se encerra às 3 da manhã, quando as poojas,
oferendas feitas aos deuses, se iniciam.
Sabendo do
meu interesse, um dos funcionários da escola em que eu trabalho prometeu
levar-me. Combinamos dia e hora em que ele me pegaria em casa para que fóssemos
juntos ao templo. Sozinha e sem algumas rúpias de suborno, eu jamais seria
capaz de assistir ao espetáculo. Ao que o dia do espetáculo se aproximava, o
funcionário da escola perguntava cada vez mais detalhes sobre o dia do
espetáculo. Numa dessas conversas, ele citou que já fez arranjos para que ambos
eu e meu namorado fiquemos em cadeiras bem pertinho do palco. Mas acontece que
meu namorado não queria ir e ao saber dessa informação que, para mim, era
irrelevante, a mudança na expressão facial do funcionário na escola mudou e ele
até ensaiou um tapa no rosto do meu namorado. Sem entender, rimos da situação e
do aperreio do Indiano .
Só
saberíamos o porquê de sua indignação no dia seguinte, quando reparei olhares estranhos
e conversas de pé de ouvido que nitidamente me tinham como tópico. Até que o
professor de música Indiana veio me perguntar se eu ainda ia assistir o
espetáculo de Kathakali no dia seguinte. Sem entender o “ainda”, respondi que
sim e rapidamente ele perguntou indignado a razão pela qual meu namorado não me
acompanharia. A simples afirmação de que ele não queria ir não foi suficiente,
mas a conversa morreu aí. Algumas horas depois, o mesmo professor de música me
aborda nas escadarias da escolas dizendo que eu não me preocupasse pois a filha
do funcionário havia concordado em ir conosco. Eu não estava preocupada, mas
fiquei, pois entendi a razão de tanto alvoroço.
Mesmo sem ser casada, meu namorado é, aos olhos de uma cidade Indiana de
predominância islâmica, meu dono. Sair sem ele é algo inadmissível, sair
acompanhada com um outro homem, mesmo que ele tenha idade para ser meu avô é
motivo para um escândalo tanto para mim, mulher desonrada, como para ele, um
possível estuprador de mulheres desacompanhadas de seus legítimos donos. Acabei
não indo para o espetáculo de Kathakali. Não preciso ser acompanhada por outra
mulher em nome de minha honra. Mais tarde, o funcionário me presenteou com um
DVD com quatro horas de espetáculo.
A situação,
completamente nova para mim, mesmo com um ano e meio de Índia e 11 meses
morando numa cidade de maioria islâmica, ao invés de deixar com raiva, minha
reação natural a qualquer espécie machismo, entristeci. Entristeci pois as
mulheres dessa cidade não possuem a menor perspectiva de que essa situação, em
que homens são donos de suas esposas, se modifique. Mas as mulheres da minha
cidade vivem situação parecida com uma diferença – há na sociedade em que elas
vivem a possibilidade de quebrar esse ciclo, mas a imensa maioria não quebra.
Conheço algumas mulheres independentes, cujos maridos são companheiros de vida
e na qual a relação não é ditada por nenhum dos dois. Mas a maioria das
mulheres da minha cidade e do meu país vivem relacionamentos ditados pelos
desejos do homem e de uma sociedade machista na qual o tamanho da sua saia é
justificativa para um estupro e dupla jornada é uma questão aceita sem maiores
discussões. Mulheres e homens ocupam papéis pre-estabelecidos que não são
questionados, desde a mãe que não deixa o filho ajudar nas tarefas de casa pois
“não é coisa de homem”, passando pela adolescência na qual o menino precisa
“pegar geral” para se afirmar como homem, até o cara que bate na mulher e a
sociedade diz que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, um
eufemismo pra apatia diante da violência doméstica. Vivemos num mundo em que um homem traído é corno, a
mulher traída é apenas um lugar comum.
O que
achamos absurdo aqui, por ser pintado com as cores agourentas das burcas opressoras, é rotina na vida de muitas mulheres no Brasil
que, caladas e oprimidas, seguem seus
dias.





Bastante notável se informar sobre o Kathakali... Um espetáculo Sui genere, que se faz quase necessário seu conhecimento para se integrar um pouco mais sobre a cultura indiana. Ao mesmo que é triste ver a realidade das mulheres... E não consigo imaginar a reação de uma brasileira ouvindo um tipo de comentário como "Seu namorado é seu dono"... Espero que nada permaneça tão radicalista assim.
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